Todos nós já sentimos fome, a sensação física provocada pela necessidade de alimento, uma situação temporária, suprida com a refeição seguinte. Algo diferente, bem diferente, é ver a fome nos olhos de alguém, o resultado da falta de alimentos por insuficiência económica. Recordo as palavras de uma amiga que trabalhou em Moçambique: “Agora sei o que é a fome. Ver aqueles olhos das crianças na rua é algo que não se esquece.” Outro nível ainda será ter os olhos da fome, reveladores da condição de pobreza, privação, abandono e invisibilidade social. Estudos, diagnósticos, debates, estratégias, planos, entre outros instrumentos de ação, são importantes, mas talvez sejam insuficientes na resolução de problemas sociais complexos. É fundamental aproximarmo-nos das pessoas, ouvi-las, conhecer a realidade in loco, sentir, vivenciar. A combinação das duas dimensões – teoria e prática – poderá ser a chave para a definição de políticas publicas que respondem às necessidades reais de cada pessoa. “Londres é a melhor das cidades e, no entanto, apresenta alguns dos níveis mais elevados de pessoas a dormir na rua.” Esta afirmação foi feita pela nova Secretária de Estado para os Sem-Abrigo, Democracia, Comunidades e Fé, Florence Eshalomi, que integrou o Governo britânico a 12 de julho de 2026, após Andy Burnham se tornar primeiro-ministro. Florence foi criada apenas pela mãe, professora, de origem nigeriana, descendente de escravos da Bahia que foram para a terra dos seus antepassados na Nigéria. Ela e as duas irmãs viveram com a mãe em alojamentos temporários até conseguirem uma casa camarária. Agora, é ela a responsável por essa área no Governo britânico. Não sei se será bem-sucedida e se conseguirá resolver um dos grandes problemas da Europa, a crise habitacional. Também não chega ter sentido o problema na pele para o conseguir resolver. Ainda assim, escreveu na revista Big Issue, criada para as pessoas em situação de sem abrigo poderem ganhar algum dinheiro coma sua venda: “Sei a diferença que faz quando se tem um lugar seguro para viver, pessoa à nossa volta que se preocupam connosco e a hipótese de planear o nosso futuro. E também como tudo se torna muito mais difícil quando não se tem.” Uma das principais causas para as pessoas viverem na rua é o preço das casas nos principais centros urbanos. Em Portugal, o preço das casas não para de aumentar, um fenómeno que não se restringe às áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Onde há ofertas de emprego, as pessoas não conseguem auferir o suficiente para assegurar os custos inerentes à habitação, um bem precioso que se transformou num luxo proibitivo para uma franja considerável da população portuguesa. O envelhecimento demográfico está a acelerar, sem que as dificuldades habitacionais enfrentadas pelas pessoas mais velhas estejam devidamente documentadas ou sejam suficientemente consideradas. Quais são as condições de vida das pessoas mais velhas em situação de sem-abrigo ou de habitação precária? Quais são as causas estruturais desta vulnerabilidade e que respostas poderão contribuir para a ultrapassar? No dia 15 de setembro, terei a oportunidade de participar no debate europeu sobre as pessoas mais velhas e em situação de precariedade habitacional na Europa: A CRISE SILENCIOSA. Uma iniciativa da Fundação Abbé Pierre e a Federação Europeia das Organizações Nacionais que Trabalham com Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (FEANTSA) que alertam para o crescimento deste fenómeno. É também com muita expectativa e sentido de responsabilidade que, no âmbito do Contrato Local de Desenvolvimento Social Viseu Plural: Itinerários Inclusivos, será lançada a campanha “Ver Para Além da Rua” que visa: combater o estigma, capacitar os cidadãos para identificar situações de risco e saber como agir corretamente. Julgar não muda nada, aproximar, escutar e encaminhar, isso sim pode fazer a diferença na vida de uma pessoa.