Tive uma tarde e uma noite de exceção, proporcionadas pelo Festival Literário Internacional de Viseu (FLIV). O privilégio de ouvir três autores de língua portuguesa que muito admiro: Mário Lúcio Sousa, Ondjaki e Dulce Maria Cardoso. A autora de O Retorno, um dos livros que mais me marcaram, foi um bálsamo de empatia e sabedoria. Interrompeu a escrita do segundo volume de Eliete para cuidar da mãe, que vivia com a doença de Alzheimer. Uma experiência que também a levou a questionar a forma como tratamos as pessoas mais velhas, num excelente artigo publicado no Público: “Porque escolhemos não ver os velhos?”. A pergunta não me abandonou. Há muitas formas de tornar alguém invisível. Uma delas é deixar de reconhecer a pessoa para passar a ver apenas o problema: a idade, a doença, a deficiência ou a dependência. Conhecemos bem os chamados “internamentos sociais”. Pessoas mais velhas que permanecem nos hospitais após a alta clínica, não por necessidade médica, mas porque não existe uma resposta familiar ou social que as acolha. Pessoas que continuam à espera de um lugar na sociedade. Mas, por estes dias, fomos confrontados com outra realidade que me deixou estarrecido: crianças retiradas das suas famílias que, por ausência de respostas adequadas, acabam colocadas em hospitais. Crianças em hospitais, não porque necessitem de internamento clínico, mas porque o sistema não encontra outro lugar para elas. Como chegámos aqui? Quando estão em causa crianças com autismo, deficiência ou necessidades complexas de apoio, a exigência de respostas especializadas e humanizadas é ainda maior. Precisam de segurança, de afeto, de relações estáveis e de ambientes que promovam o seu desenvolvimento. Precisam, acima de tudo, de ser vistas como crianças. Não podemos aceitar que os hospitais se transformem em respostas sociais improvisadas, nem que a incapacidade das instituições seja suportada precisamente por quem mais necessita de proteção. Esta realidade não se esgota nos internamentos. Continuamos a encontrar crianças sem acesso atempado a cuidados especializados, famílias sem apoio adequado e situações de violência, negligência e exclusão que permanecem demasiado tempo invisíveis. Há algo profundamente inquietante nesta aproximação entre os dois extremos da vida: pessoas mais velhas e crianças sem respostas adequadas, ambas confrontadas com a incapacidade de lhes assegurar um lugar digno na comunidade. Não faltam proclamações sobre direitos. Faltam respostas que os tornem efetivos. A invisibilidade não acontece apenas quando deixamos de olhar. Acontece também quando vemos, sabemos e escolhemos não agir. Um Estado Social não se avalia apenas pelas respostas que anuncia, mas também pelas pessoas que deixa sem resposta. Porque escolhemos não ver as crianças?