Se já sabemos que alguém não terá para onde ir, de que estamos à espera?
A perda de uma casa pode começar muito antes de uma noite passada na rua. Começa na renda que deixou de ser possível pagar, nas prestações em atraso, nas despesas essenciais que se tornam incompatíveis. E na ausência de uma alternativa quando se pergunta: «Se tiver de sair, para onde vou?»
É nesse tempo, enquanto ainda existe uma casa, que a prevenção tem de acontecer.
Em Espanha, a HOGAR SÍ alertou para a ausência de perguntas específicas sobre a situação de sem-abrigo no Barómetro da Habitação 2026 do CIS. O alerta coloca uma questão essencial: como compreender a crise da habitação sem conhecer também a realidade de quem já perdeu a casa?
Em Portugal, o Barómetro da Habitação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, de 2023, inclui a perceção do risco de perder a casa. Esse conhecimento deve convocar uma responsabilidade: perceber que apoios podem chegar antes de a perda acontecer.
Identificar um risco exige mais do que registá-lo. Exige uma resposta.
Que acontece depois de alguém dizer que não terá para onde ir? Quem escuta essa informação? Quem acompanha? Que recursos são mobilizados? Conseguimos agir a tempo ou esperamos que a perda da casa torne a situação suficientemente grave para desencadear uma intervenção?
Uma política de habitação precisa de olhar para quem procura casa, para quem luta por mantê-la e para quem já a perdeu. Precisa também de ouvir essas pessoas e de lhes dar participação nas decisões que afetam as suas vidas.
O DESASSOSSEGO está neste intervalo entre saber e agir. Entre reconhecer os sinais e assumir a responsabilidade de lhes responder.
Se já sabemos que alguém não terá para onde ir, de que estamos à espera?
Porque do que não se fala não existe.